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terça-feira, 26 de dezembro de 2017

AUTOCLISMO vs. AUTOCLISMOS ( Je Suis WC, Almada )

O primeiro autoclismo de que me recordo era da marca Dilúvio. De um reservatório junto ao teto pendia uma corrente metálica e um puxador. O meu pai tinha-o pintado de prateado. Era uma lindeza! Depois, discretamente, sucedeu-lhe o Hipólito. Com reservatório encastrado, dava ares de inocente botãozinho de mola no topo de um só tubo em aço inoxidável. De três em três anos, aproximadamente, exteriorizava-se em nascentes ferrosas por dentre as juntas dos azulejos. Um pantanal! Já em pleno segundo milénio desagua-nos lá em casa o Sanitana. De virginais e radiantes cerâmicas mas com um nome que não entusiasma ninguém, parece mochila de loiça sem alças, carregada quase sempre em grande esforço. Que disparate!


segunda-feira, 24 de julho de 2017

PÚDICO vs. PÚBICO vs. PÚBLICO ( Je Suis WC, Porto)

O pelo classifica-se em três categorias distintas: 
pelo púdico, pelo púbico e pelo público.

O púdico perdi-o lá pelos dezoito; 
o pelo púbico perco-o desde os doze; 
pelo público só durante os dois anos que fiz naturismo.
Perdido o pelo, perdido o costume. E a ética e a moral. 
Sem o pelo já ninguém distingue o púbico do público do púdico. 

O fim de uma inteira civilização às mãos das cabeleireiroesteticistas 
e suas faixas de cera fundida a quente.




"E tudo a água levou."
Café "SATÉLITE", Porto




Pedro deCampos (8.2.2017) in "ApontaMentes"




W.C. FIELDS vs. WC CAMPOS ( Je Suis WC, Hollywood )

Há o W.C. Fields, o escritor americano, e o WC Campos, que sou eu na retrete. 
Nunca li nada do W.C. Fields mas ele também nunca esteve na minha casa de banho.







Bertold Brecht:

"Lugar de sabedoria onde podes com lazer preparar a tua pança para muito outro prazer."






Pedro deCampos (8.2.2017) in "ApontaMentes"


segunda-feira, 10 de julho de 2017

TRUMPPOESFERA


há a tromba elefantina
a tromba carrancuda
e a trombada
(linguaruda)

há o trombo encefálico
o trombo da flebite
e a trombose
(dinamite) 

há a trompa sonoplástica
a trompa de falópio
e o trompázio
(estereoscópico)

há o trump sem abrigo
a trampa na calçada
e o trumpacéfalo
(cacaborrada)

há o allegro ma non troppo
o alegre mas não trôpego
e o alegrete
           (no trombil)

Pedro deCampos (8.2.2017) in "ApontaMentes"



quinta-feira, 22 de junho de 2017

LIBERDADES

Como eu lhe tinha dado uns poemas meus a ler no nosso décimo ano, uma miúda magrinha e de cabelo preto escorrido (uma boa amiga de turma) ofereceu-me, no ano seguinte, sete versos escritos a lápis num papel amarrotado.

Que os tinha encontrado no chão. Poema sem data, autoria, título ou o que quer que fosse, para além daqueles sete curtos versos:

          PENSA
          QUE A REVOLUÇÃO
          PROVOCA

          O POVO
          É UM OVO
          QUE A LIBERDADE
          CHOCA


Memorizei-o até hoje.

Vinte e sete anos depois, dois ou três após ter queimado o caderno para onde me lembro de os ter copiado, continuo sem saber do poeta, nunca mais vi a minha amiga de cabelos pretos escorridos e desconheço o paradeiro do poema amarrotado.

Não sinto grande vontade em procurar qualquer deles, mas diverte-me imaginar que o poeta era a miúda magrinha, afinal.


Pedro deCampos (17.11.2016) in "ApontaMentes"


Tróia, Setúbal (20??) Bruno Ramos









domingo, 18 de junho de 2017

PROVISÓRIOS & DEFINITIVOS (& KENTUCKY USA)

Kentucky: aos doze anos, quando em 1984 jogávamos o Campeonato Europeu de Futebol em França com “Os Patrícios”, eu experimentava-os nas traseiras do pavilhão desportivo da Escola Preparatória D. António da Costa.


Provisórios: aos catorze anos, em 1986, enquanto “Os Infantes” faziam greve no Campeonato Mundial de Futebol no México, eu fumava-os nas traseiras do pavilhão desportivo da Escola Técnica Emídio Navarro. 


Definitivos: aos dezasseis anos, em 1988, chorávamos o Campeonato Europeu de Futebol na Alemanha Federal com “Os Ausentes” e eu esfumaçava-os no muro da frente do campo de jogos da Escola Secundária Anselmo de Andrade.

Sempre à minha frente, os outros, os mais populares do ciclo, gozavam-me muito porque eu fumava tabaco de velho.

Em 2002, enquanto “Os Tugas” iam às putas no Campeonato Mundial de Futebol no Japão e na Coreia do Sul, dois dos meus alunos de nove anos fumavam escondidos nas traseiras do campo de jogos da escola básica da Quinta da Courela. 

Em 2006, enquanto jogávamos o Campeonato Europeu de Futebol com “Os Conquistadores” numa Alemanha sem muros, via os dois extremos da minha equipa, a Juventude do Feijó, cada um com 30 anos, fumando uma cigarrada durante o intervalo de um jogo, escondidos nas traseiras do balneário do pelado Silva Nunes do Clube Desportivo Cova da Piedade. 

Em 2016, enquanto “Os Aurélios” venciam o Campeonato Europeu de Futebol em França, eu mantinha uns provisórios cigarros de enrolar no bolso direito da camisa e dois definitivos cancros às costas, um em cada pulmão.

E uma miragem… a planeada viagem ao Kentucky.

Pedro deCampos (27.11.2016) in "ApontaMentes"


sexta-feira, 9 de junho de 2017

CONSERVAS DE SERAFIM

Serafim (s.m.) anjo da primeira hierarquia; (fig) criança ou pessoa de rara formosura.
O meu avô Serafim não era nenhum anjo. Trabalhava numa fábrica de reaproveitamento de detritos de peixe e vinha almoçar a casa tresandando ao que de mais podre o mar pode ter. Eu achava-lhe graça ao nome. Gostava de o chamar «Ó Serafim!», mas não podia, por causa do respeitinho. Ao respeitinho nunca achei muita graça. Quem achava graça ao respeitinho era o meu avô Serafim.

O meu avô Serafim andava com grandes pacotes embrulhados em papel pardo, atados com cordel fininho e com uma argolinha no fim do nó para se transportar enfiando um ou dois dedos. Quando transportava estes pacotes, pesados, o meu dedo ficava marcado como as goelas de um enforcado. Ficava horas e horas naquele roxo aspeto. Doía. Parecia que o dedo se ia em dois a qualquer momento. Mesmo assim não conseguia evitar fazê-lo. Às vezes ainda olho para laços deste género da mesma forma: com um misto apertado de pavor e vontade. Especialmente por não ser o dedo que me apetece pôr no laço, que foi o que acabou por fazer o meu avô Serafim. 

O meu avô Serafim trazia dentro desses pacotes muitas latas com peixe ou outros animais do mar conservados em óleo. Às vezes em azeite, mas eram mais raros na família. Chamávamos-lhe latas de conserva pois não havia mais nada conservado em latas lá por casa do meu avô Serafim.

O meu avô Serafim gostava das de sardinha. Eu preferia as de filetes de cavala. Aqueles embrulhos traziam dentro traineiras de felicidade. Ainda hoje, assim que saco da tampa à lata e vejo o filete a reluzir em óleo, que as de azeite continuam a ser mais raras na família, sobe-me ao nariz uma imensa alegria (como a da mostarda mas sem o pingo) e vem-me à boca o cheiro do meu avô Serafim.

O meu avô Serafim dizia sempre a mesma piada quando comia uma lata de sardinhas em tomatada: «Esta lata só traz sardinhas macho porque têm tomates.» As minhas primeiras espreitadelas aos tomates (literárias e literais) devo-as ao meu avô Serafim. 

O meu avô Serafim, pensava eu naqueles tempos, gostava de latas de conservas de peixe porque queria ser um. Queira cheirar a mar vivinho ou, pelo menos, cheirar a peixes em conserva. Se estivesse fechado numa lata, durante a hora do almoço, já não cheiraria ao que de mais podre o mar pode ter, o meu avô Serafim. 

O meu avô Serafim olhava-me de soslaio com aqueles seus ares do respeitinho é muito bonito sempre que eu gargalhava ao imaginar-me a abrir uma lata de conservas de serafins e encontrar vários serafins em forma de filete lá dentro. Ainda hoje, quando abro uma lata, sobe-me à boca uma gargalhada porque encontro sempre o meu avô Serafim. Em filete, com asas e auréola de anjo, mas sempre com as grandes orelhas do meu avô Serafim. 

O meu avô Serafim gostava muito do respeitinho. Mas com umas orelhas daquelas desconfio que ele não era nenhum Serafim.


Nazaré (2006)













Pedro deCampos (18.11.2016) in "ApontaMentes"


quarta-feira, 7 de junho de 2017

EXPERTISTAS



"Abomino expertistas, especialistas em especialidade" (2)
(2) Adília Lopes, BANDOLIM, Assírio&Alvim, p.163, 14/8/2015 
Irritadíssima, enquanto ouvia José Gomes Ferreira. 


Pedro deCampos (22.11.2016) in "ApontaMentes"



NEURA & NEUROSE

"Uma forte crise nos mercados financeiros pode, em segundos, transformar milhares de neuroses em neuras!" (1)


Neurose (s.f.) afeção mental caracterizada por perturbações funcionais, sem que a personalidade seja atingida; neuropatia; nevrose.

.telha ,nervosismo ,bolha (s.f.) Neura


Estou mais para as neuras que para as neuroses. As neuras são mais baratas; têm menos custos associados. A neura do Restelo é, na verdade, uma neurose; já a neurose do Chegadinho não é mais que uma neura. A neura é a neurose dos pobres e dos remediados. A neura nunca chegará a neurose.

Que neura!
(1) José Gomes Ferreira, Jornal da Noite, SIC, 6/7/2013; alarmadíssimo. 

Pedro deCampos (22.11.2016) in "ApontaMentes"


terça-feira, 2 de maio de 2017

NOMES DE TERRAS LÁ PRÓS LADOS DE SABOIA

Pomba, Santa Bárbara, Casa Nova da Cruz, Purgatório, Barranco do Inferno, Carapetos, Craveiras & Nave Redonda

Pedro deCampos (17.11.2016) in "ApontaMentes"


Saboia, Odemira (2011)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

PERDIDO ENTRE SABOIA E S. TEOTÓNIO PELO FAROESTE ALENTEJANO

EN 120-2

bestas bermas bifurcações e badaladas
ecos egos entroncamentos e encruzilhadas
triângulo vermelho vivo morto sangue e gozo
anual sinal de perigo muito muito perigoso

LOMBA E CONTRALOMBA
á ante após até com contra de desde

Pomba (há
uma virgem intrujada: o amor)
Santa Bárbara (ante
uma prece tão à pressa: a vapor)
Casa Nova da Cruz (após
casar nova em cruz foi fixa: com rancor)
Purgatório (até
à mais inútil das labaredas: um ardor)
Barranco do Inferno (com
uma ida sem progresso: que pavor)
Carapetos (contra
o capeta cara preta: o fedor)
Craveiras (de
moleira rachada prá vala comum: no bolor)
Nave Redonda (desde
que viu nossa senhora em jejum: um tumor)

CONTRALOMBILOMBA
desde de contra com atè apòs ante à

Pedro deCampos (19.11.2016) in "ApontaMentes"


Miradouro da Boca-do-Vento, Almada (2005)