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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL ( IX, X )



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.





9. REIVINDICAÇÕES DO POVO GREGORIANO
(implicações no mundo moderno)

Diz o classificado e anedótico dossier
pela estadunidense putaria denominado
“Nova e Viva Mitologia Portuguesa”
ou “Como Salvar A Mitologia em Portugal”
e ainda “Um Vomitado À Beira Mar Plantado”,
que o mundo gregório se sindicalizou
numa dita dura do vomitado
gregórios de todo o mundo, uni-vos
num grande esforço à pestilência dedicado
escorrendo pastas arroxeadas pelos bairros mais finos
num excremento pela nata exalado

uma pasta pelo neo-liberalismo criada
uma papa pela madre igreja abençoada
uma mistela pela ignorância nada
um caldo pelo silêncio apodrecido
um liquor pelo maus tempos enriquecido
um sapo pelo povo deglutido
crosta pelas artes cagada
amalgama azeda por políticos escarrada
sentença amarga pela justiça afagada

massas orgânicas do vinho putas
sangrando pedaços de órgãos clonados
cores dançantes mirabolantes atraentes
mágicas doces borbulhantes ferventes

vivendo-se
escorrendo-se
arrastando-se
exalando-se

avenidas quaisquer
cidades também
países imundos
continentes profundos
neste, naqueles, aqueloutros e todos mundos
castrando

até serem comidos por 1 bobi
figura principal
actor irreal
protagonista fenomenal
da fita animal
os 101 bobis
do realizador Alfacinho-carioca
sobrinho-neto de José Sarney
(também dentista afamado
travestido e disfarçado
e em futebol de praia cursado)
Valter Dizenei






10. DOUTOR ARAÚJO MIL ACRES
(uma saga gregoriano-familiar - o conflito geracional)




















…enquanto isso:

julguei-me eternamente bafejado pelo infortúnio
no árduo papel de encarregado de educação,
porque ao entrar o quentinho do lar
e no meu aconchegado ninho me preparar
para amadurecidamente repousar,
ainda não havia deposto a gabardina,
nem afagado a doméstica siamesa felina,
e logo me deparei com a missiva chocante
do ingrato adolescente inconstante.

“Filho do demo”, apetece dizer
depois do mísero recado ler
“endiabrado vomitado, sejas tu
por um autocarro atropelado
num carril de eléctrico electrocutado
e muito muito pelo povo espezinhado
arrastado e humilhado em pleno Chiado”.

Apetece mil vezes mil repetir
e sem apelo nem agravo retorquir
com duzentos açoites e outras tantas bofetadas
os sacrifícios, os desgostos, as noites inflamadas.

Escrevinhei de pena em riste
(notando-se a lágrima no papel
com algum sal na percentagem de fel)
germinei um capítulo triste
de modo verdadeiro e fiel
mas resguardando o conteúdo da carta
da pobre Mãe, mulher tão farta
e propensa ao crítico enfarte
uma espécie de forma de arte.

E assim ficou:

“Pai:
A mãe já não está
bem nem mal; passada.
É como ela está!
Saiba-se porquê?
perguntará vocemecê
que se seu diário tão amado
a ela não furtasse o mais desejado…”

“Novos caminhos pretendo desbravar,
construir oceanos só meus
marés das entranhas saídas, decerto
mares que ninguém conhece, é certo,
dar-me ao céu e às descobertas
no alto mar da agonia
e nas lustrosas madeiras da coberta
saborear uma placenta, chorar uma cria.”

“Sentir nove horas neste estômago
um vómito enjoado
e comungar enojado
satisfazendo-me realmente
ao cuspi-lo eficiente.”

“Lembre-se da minha plumagem, meu pai!
Recorde o luzidio roxo e o verde tão lindo!
Comemore os nossos anos de oiro
em que o bobi dava o coiro
para me chupar com uma palhinha
para me engolir via oral
muscular ou intravenal.”

“Deixe-me ir com a paz, velho amigo!
Pense que o meu baptismo já não é de agora
reparando naqueles que hoje sigo
e pelo nome tão mal cotados lá por fora.
Quero ir para outros invólucros…
ser engolido e deglutido novamente
que me cansa esta simplicidade redutora
elevada a modo-vida da gente.”

“Vou para a América latina
para lamber uma latrina.”

“Não me insulte
nem me maltrate.
O senhor que se diz escritor
de toda a sabedoria detentor
que nem um diário consegue acabar
não vê que se está a metamorfosear?
Venha comigo
seja o elo que as espécies une
vamos cantar ao mundo
num dueto intune
as possibilidades da técnica
as boas novas da evolução genética”

“A Deuses”

Confesso:
Fundeando bem a alma
dragando bem todo meu íntimo
também eu derramei meu sal
lacrimal, seja dito,
sobre o crocodilo do Nilo;
se um funil tivesse à mão
recolheria o meu vasto lamento
escreveria uma bonita canção.

A canção do lamentável pai:

“Não partas filho
não partas por esse caminho
não partas criança
não partas o coração ao pai
não partas rebentinho
os cornos à tua mãe
de dor e preocupação
de medo e consternação
não te juntes à dita dura
não abandones a cura”

Nunca adentrei pelas tabelas nacionais
com a lamentosa e melodramática canção;
nunca fui itpareide do meidim Portugal
nem se seleccionou para qualquer festival.

Araújo Mil Acres (12.1999)


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL ( VI, VII, VIII )



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.





6. OS SACRIFÍCIOS DE UM MÉDICO
(diário camoniano mas à prova de água)










…ao diário então voltei,

doente, débil
molestado pela agonia
enfraquecido, pelas febres comido
de dia para dia
em noites de demência, medo e diabrura,
que aquele diário me pareceu só fel e amargura
como um diário de bordo
do bom, do mau ou de quais
isso não o sei,
de tão enjoado estava e enojado
que o estilo desenhado
da minha própria caligrafia
me lembravam ondas e balanços,
terríveis fedores de lodaçais podres
em horas de maresia
que para ser auxiliado
nesta demanda de cruzado
o gregório chamei

e nos joelhos e na púbis e no abdómen e nos cotovelos
com a tromba com a testa com a próstata e tornozelos,
às vezes e vezes e sem conta mais ainda vezes encostei
na coberta apostei, implorei, vomitei, agonizei, enfim, regurgitei
cantando,


cantando muito, assim:

               Gregóooooorio… do Grego
               Gregóoooorio… no rio
               Gregóooorio… tão frio
               Gregóoorio… notório
               Gregóorio… caí
               Gregório… de grogue
               Regório… a fio
               Egório… of poached eggs
               Gório… velório?
               Ório… fodi
               Óri… p’ra ti
               Ór… as e horas
               Ó… Gregóooooorio !!


mas ao vómito gripal sobrevivi.




7. RECEITA PARA DAR VIDA A UM GREGÓRIO
(o novo ser mitológico)



fosse indigesto, torpe, mesquinho e cruel, 
o famoso Pantagruel,
me recomendasse uma “Massada Vil
au Camarão do Tejo Caril”,
ou um bechamel em infectada
“Tainha Sodré Recheada”,
e, de modo algum um dia,
em tão maus lençóis cairia
como enquanto naquela coberta batia,
às portas da mitologia…

…Portuguesmente se sinta
e Almadanadamente se pense
que o Gregório se tornou gente.





8. ALGUNS ANOS LUZ MAIS TARDE
(na continuação do episódio anterior)

E foi aqui em Portugal
em tempos de epidemia
metamorfósica cérebro-gripal
que, topessecretamente documentado pela generosa CIA,

aquele a quem chamavam “vomitado”
e que simplesmente consistia
no acto de de dentro de nós ser lançado
e pelos ébrios jovens da época se via
agora terrivelmente alcunhado
nas bordas de qualquer pia
por Gregório, o Mal-amado,
que esta figura da mitologia
se viu finalmente nado.


Consiste simplesmente
num ser que, felizmente,
não fala e nem sequer mente
apenas se desenvolve em ácidas entranhas
enquanto gera indisposições estranhas
como se pelo esófago hospedeiro trepassem aranhas
obriga a vítima a contínuos movimentos peristálticos
incessantes desenvolvimentos nevrálgicos
contínuas convulsões lamentos terríficos
mas, contudo, por assim dizer,
após do suado corpo da vítima se ter auto-expelido
fêmeas houve que o oscularam gritando “marido”
e machos fortes lhe chamaram: “filho querido”,
que este gástrico ser imediatamente se convenceu
face aos narcísicos mimos de todo aquele que à luz o deu
que o velho Gonduana e Mundi podia ser todo seu.


Araújo Mil Acres (12.1999)


terça-feira, 18 de julho de 2017

A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL ( IV, V )



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.





4. DIÁRIO DOS SACRIFÍCIOS DE UM MÉDICO
(prováveis implicações no reino animal)


foto NUNO REALINHO (Projectos SuReal) 





















…edifiquei eu então,

em plena indisposição e mal-estar
porque da doença infeliz
para melhor estudo eu me fiz,
alvo, cobaia, hospedeiro ou lar,
um Majestoso Diário
utilíssimo à humanidade:
do bisonte ao rinoceronte
do símio ao hominídeo,
do jacaré ao chimpanzé,
grandes e estranhas alterações
com genéticas repercussões
nas respectivas evoluções
porque todos aplaudiram de pé

e nunca mais se esquecendo
de como a mão solta dá um certo jeito
e o polegar oponente
permite ser tão diferente
e um dedo indicador
tão nervoso e com fervor
pode com facilidade disparar
tiros de carabina para o ar,
foi assim que a fauna animal
passou a viver menos mal

porque seu predador principal
de caçador a presa passou
e em perigo de extinção entrou.

Animais e plantas unidas
jamais serão vencidas
na luta que vão travar;
querem regras decididas
leis que preservem vidas
para o ser humano salvar.




5. REGULAMENTAÇÃO SELVAGEM
(alguns artigos para salvar a humanidade)
























Artigo 1º : Crânio-Missanga

Fica proibido o elefante,
(o mais trombudo dos paquidermes
o menos leve dos terrestres animais),
de os humanos tratar como vermes
ao, egoisticamente, se embelezar
com seus crânios mirradinhos
tal e qual missanga azul-mar
em pulseira, aliança ou colar.

Artigo 2º : Palito-Mindinho

O segundo dos artigos
ao gorila é dedicado
para abolição natural
de a velho costume habituado;
desenraizar da cultura símia
o paliteamento do dente
sempre que executado
com mindinhos de gente.

Artigo 3º : Pilinha Afrodisíaca

A qualquer rinoceronte branco
ou aos cinzentos também dirigido,
sobre os míticos afrodisíacos
recaíu a temática deste artigo.
Que viril seja por si mesmo e só,
se reclama ao pré-histórico animal;
desacredite, doravante, a pilinha tenrinha
como alimento da tesão fenomenal.

Artigo 4º : Tenros Petiscos


Proíbem-se todos os animais
e também os carnívoros vegetais
de para sempre se delamberem
com certos petiscos como tais:
todos aqueles cujo ingrediente
seja considerado incorrecto
por consistir ou apenas derivar
do humano e tenrinho feto.

Artigo 5º : E Da Ova Se Fez Peixe

Se da ova de todo o peixe
o homem apreciador se fez,
será muito grande esta lição
(um dar da face à malvadez)
se se convencer o terror dos mares
que dá pelo nome de tubarão
de chiar orgulhosíssimo:
“Mais mulheres grávidas não!”

remotas histórias de eras esquecidas
que por vezes convém relembrar.



Araújo Mil Acres (12.1999)


sábado, 15 de julho de 2017

A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL ( I, II, III )



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.












1. O MESTRE E AS CRIATURAS VINDOURAS
(uma formação realmente espontânea)

Mergulhei de boca e lápis pelo papel


Segundo e seguindo Agapito
(nome comum ilustríssimo)
de Benevides e Campos
(próprios nomes desse gentil senhor finíssimo)
tão imprestável doutor e especialista
da protestável Portuguesa clínica generalista
que homem útil à ciência, verdadeiramente
diga-se que o foi realmente
apenas em especialidade alguma
será como dizer
objectivamente e em suma
evidentemente em coisa mesmo nenhuma...




foto SANDRA GONÇALVES, in FB (26.6.2017)








2. MEMÓRIAS PRIMAS
(nostálgicas recordações)


... prescrever

em tão bom tempo e tão bem
porque também e até muito bom generalista sou
apesar de ternamente ser
um mero e interessado discípulo seu

(tal qual Alexandre Heleno do Ó Grande,
do mestre Aristóteles das Tangas e Togas Toscas,
que lhe pôs a mesa usando na mão direita um mata-moscas
que a esquerda apenas toca um vinho e experimenta
com sandes de guisadas carnes de peito lisboeta
insistindo o velho e alucinado sábio para que
fervorosamente ao cérebro o tinto arremeta)

prescrever

declarações, alterações e inovações amiúde
registos escritos, rescritos e gravuras
que se o clima mediterrânico meu raciocínio não ilude
por mais que a menina medicina hoje em dia mude
olho eu como actuais essas páginas com iluminuras.

São textos tão dengosos
com arrastados odores melosos
deitados ao papel de receita
cuja caneta já lhe é tão afeita
com tinta chamada permanente
escorrendo de um paro incontinente
em funestos actos caligráficos
de formas e conteúdos sádico-gástricos...





3. A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL
(diagnóstico precoce e amor pela ciência)


Que então diagnostiquei eu


a Metamorfose Cérebro-Gripal
em adoentado tratado medicinal
para quem não bate bem ou mal
do foro freudiano-sexual e
querendo combater tão vil verme gripal
mais pestilento que meu sogro Juvenal
li já escrito num reles jornal
(erro salvo se não foi n'A Capital)
que para tal dever-se-ia viajar até ao Senegal.
Notícias de um país idiota bem real
onde se mata por um SG Genital
gérmen nicotinoso para catarro matinal
é pipi pito pitoada toada pitada salgada de tão pouco sal
na nossa vidazita social
encarcerados num orifício cavernal;
Vê-me por favor num negro dicionário abissal
que tipo de cal é essa tal cal
que vem cegando de modo letal
um povo que já lá vão anos e anos a ver tão mal.

Malentendus à parte
no concernente a outras viroses e achaques
achei por bem para todas as partes
revelar ao mundo,
de Cicrano e Beltrano
de Blimunda e Segismundo
casa de todos nos no fundo,
da Metamorfose Cérebro-Gripal
tudo tudo e mais do que tudo:

definições
clínicas manifestações
possíveis complicações
prevenções
e terríveis conclusões

sua etiologia
tua patogenia
nossa patologia
deles epidemiologia

sintomas subjectivos
objectivos sinais
prognósticos efectivos
diagnósticos e algo mais

pelas páginas de um diário diário.

Araújo Mil Acres (12.1999)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.



Este "Diário do Doutor Araújo Mil Acres", segundo o próprio cirurgião, foi escrito em apenas dois dias e durante uma gripe em febres altíssimas, sem antipirético que lhe valesse. Em dezasseis entradas não datadas, com verso branco ou rimando, o físico fez da escrita seu antibiótico e, quer crer, eternizou-se nos finais do ano de mil novecentos e noventa e nove. 

- Mas mais no espaço que no tempo... e mesmo assim só um miligramazinho. - Confessou-nos esta sumidade universal em verborreias agudas.

Araújo Mil Acres (12.1999)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P4)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P3)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P2)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P1)