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segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A BERNARDETE (uma história em auditório)

  • LiteraDura do ProleTariado (histórias do trabalho)



 "O burburinho inicial que se fez logo morrinha de aplausos, cedendo lugar a uma bátega de vivas e caindo num trovejo de urros e gritos, não davam espaço às dúvidas iniciais de Noémia de Valente Albernoz ou dos presentes mais relutantes, que, encharcados de emoção aprovavam, assim num relâmpago, a mais jovem das palavras portuguesas."



"A causa ruim, palavras sem fim." 
( Provérbio Português )


XXXVIII Congresso Nacional de Linguística
(aos vinte sete dias do mês de julho do ano de mil e dezasseis)

Aquele fenómeno não tinha precedentes. Passar sem documentá-lo ou não divulgá-lo era quase um crime contra a humidade, um hominídeo em primeiro grau. Não demorei um fósforo a decidir-me: além de já ter despachado o paper pelos habituais meios de comunicação, iria incluí-lo nas minhas mais concorridas conferências do périplo europeu. Naquela véspera, no quarto do hotel, sabendo de antemão do incêndio linguístico que estava prestes a cuspir, acordei ensopada em suores etimológicos e urinei um léxico muito concentrado, fétido e de tons realmente assustadores – algo pouco habitual na minha longa e experiente vida académica e de dedicação à linguística.

Às dez da manhã, já sou eu, Noémia de Valente Albernoz, saia-casaco, pasta-sapato e broche-echarpe requeridos pela etiqueta, perante quase dois mil no centro de conferências. Depois dos aplausos e pigarreios, dos centros de mesa e dos copos de água, dos diz que disse e dos escreve que escreveu, discorri:

«Os nomes taparuére, lambreta ou botox são tão comuns quanto bem conhecidos de todos os portugueses. Mas nem sempre assim foi. Tempos houve em que esses nomes mais não eram que irreconhecíveis substantivos próprios, simplórias nomenclaturas comerciais para os produtos que então se apresentavam às gentes. Nessa época, trancada que ficou no século passado, palavras como chiclete, cotonete ou gilete eram tão conhecidas e prontamente descodificadas como hoje em dia também não o são alguns interessantes vocábulos novos, como o ondulante tolitinolobruprofeno, nomeando analgésicos em cápsulas naturais revestidas a tripa para absorção lenta ao nível do intestino, ou o atualíssimo i-not, que nos oferece finíssimos caixões em cerejeira. 


No entanto, percebemo-lo hoje claramente, não são raros os casos em que passar de nome próprio a nome comum é, na verdade, uma espécie de progressão na carreira comercial dos substantivos de consumo, mesmo que tal implique a queda ou a perda de alguns fonemas no longo caminho percorrido até ao apalavrado estrelato da rentabilidade. 

Se nos casos da americana farinácea maizena ou do caldoso knorr alemão tudo mudou no produto desde o seu nascimento mas ficando os nomes para sempre iguais, o mesmo não sucedeu com alguns dos produtos já acima referidos, especialmente no que concerne àqueles cuja terminação contém a perfumada fonia éte – soando algo afrancesados mas, na realidade, carregados de anglicismos norte americanos.»

Ouvem-se muitos ós de espanto no anfiteatro. Noémia continua, imperturbável:

«Por cá perdendo o ésse mas ganhando um é final, tal qual garoupa que muda de sexo conforme convier à espécie, a controversa chiclete é mastigada por ambos os sexos sem descriminações: mesmo que seja feminina em Portugal – a chiclete –, enquanto se masca masculina no Brasil – o chiclete. Na nuvem lusofónica também lhe chamam chuinga, gâme ou pastilha elástica, mas, por lhes faltar a sensualidade vocálica que abunda em chiclete, nunca tiveram direito a uma canção pop no top, tal como sucedeu a esta.»

Olham-se desentendidos os mais novos. Riem-se os quarentões e os ainda mais velhos. Bebe dois golos de água e prossegue firme como um mineral:

«Cotonete também gera confusões. Igualmente americano de nascença, aparece por cá, contudo, assim mesmo redigido, com a sua forma escrita não perdendo nem ganhando na grafia ou na fonia; mas, se comparado com a mais modelada cotonnette francesa, vai que entre Paris e Lisboa perde nos énes e desvaloriza nos tês. Ainda incrementa a confusão porque, servindo tanto ao macho como à fêmea, também pode o nome variar do masculino para o feminino – e mesmo assim o pavilhão auditivo continuar asseado. Não é invulgar ter-se na casa de banho um gaiato a escarafunchar com um cotonete e em simultâneo, no quarto de banho, uma moça a fazer rodopiar uma cotonete; mas tal preciosidade linguística já vai rareando neste reino tão enfermo de palavras duma mesma família.

Curiosamente a gilete tem também história complexa. Chega da América deixando naufragados no Atlântico um éle e um tê, e embora se inicie com uma singela lâmina, hoje em dia escanhoa com um recorde de sete chapas de aço – oito, se se tiver em conta a afiada folha especial para delapidar patilhas. Aparece, nos primórdios, para tornar o rosto dos mais rijos homens em imberbes rabinhos, mas logo passa a rapar também as pernas, as coxas, as virilhas (e suas continuações) e as axilas das senhoras, e também os seus bustos e faces nos casos mais dramáticos. Mais tarde, jogam-se às pernas de ciclistas e de nadadores profissionais, de ambos os sexos, para que estes atletas possam deslizar várias milésimas de segundo abaixo do esperado nos respetivos ambientes competitivos. Já neste século raspam-se para as peitaças, os coros cabeludos, as costas, os sovacos, as virilhas outra vez, os escrotos púdicos, os esgotos púbicos e os esforços públicos de todo e mais um qualquer espaço peludo de gajo ou gaja sem exceção. Tal como vem sucedendo no duelo entre a lâmina manual e os modelos elétricos mais recentemente nascidos, o nome também tem resistido às muitas mudanças nos hábitos pilosos do humano ocidental, mantendo-se teimosamente como substantivo feminino em qualquer lugar do mundo ou em qualquer canto do corpo.»



Assenta-se na plateia com a cabeça em movimentos verticais. Há mãos que confirmam as afirmações passeando dissimuladamente em algumas partes do corpo: uns por vales bravios; outros por planaltos desbravados. Com um leve tremor de lábios, adivinha-se o final: 

«Felizmente, com mais ou menos vogais e consoantes, estes substantivos generalizaram-se como nomes comummente aceites, não sendo assim necessário, por agora, pedir ao balcão do café uma goma de chicle aromatizada com frutos silvestres, dizer-se que já nos estão a acabar os aparelhos de barbear compostos por duas peças onde se encaixa pelo menos uma lâmina, ou pedir à mãe que nos passe nas orelhas duas ou três hastes flexíveis com ambas as pontas revestidas por algodão para fins higiénicos ou não.

E, não obstante a imensidão existente destas palavras, até eu, Noémia comum que sou nas horas vagas, calço crocs, corro de licra, conduzo um jipe, cozinho em pirex, lamino a inox e talvez não venha a resistir aos encantos do botox. Até eu, dizia, sinto um especial e acrescido carinho por estes nomes que me vêm acompanhando há mais ou menos idades, especialmente pelos afrancesados terminados em éte, graças à minha formação inicial nas literaturas francesas mas mais ainda pelo meu linguajar de alcova.»

Com um arquejar trémulo, suspende os presentes por um fio, indiciando na voz pausada uma trovoada neológica:

«E é assim, com deleitado e linguarudo prazer, que muito gozo em apresentar-vos o galicismo que já anda nas bocas do mundo, que já sussurra aos ouvidos da Terra, tornando oficial a passagem de substantivo próprio a nome comum (para efeitos comerciais), do neologismo bernardete.»

O burburinho inicial que se fez logo morrinha de aplausos, cedendo lugar a uma bátega de vivas e caindo num trovejo de urros e gritos, não davam espaço às dúvidas iniciais de Noémia de Valente Albernoz ou dos presentes mais relutantes, que, encharcados de emoção aprovavam, assim num relâmpago, a mais nova das palavras portuguesas.

À saída do auditório, com um sorriso rasgado pelo triunfo, Noémia declara às televisões que não mais a largaram desde a sua apresentação:

«Não há agora cidadão que não sonhe, deseje, suspire, grite durante o sono ou até que mate por uma bernardete. Os muitos portugueses que não podem comprá-las, lá se quedam imaginando-se servidos à mesa por uma bernardete, vestidos de manhã por outra bernardete, de cabelos escovados ao deitar pela terceira bernardete, leve-me as crianças ao colégio, Bernardete, reveja-me este discurso, bernardete, não se esqueça dos depósitos nas Caimão, bernardete, e as ações?, venda, bernardete, venda, venda-se barata, Bernardete, venda-se pelo salário mínimo, bernardete, foda-me com força, Bernardete, foda-me todo, foda-me a tempo inteiro no seu quartinho dos fundos deste palacete magistralmente imaginado e, vá lá, pode ir que eu deixo, regozije-se com o namoradinho no seu único meio-dia de gozo mensal.»


«Já encomendou a sua bernardete?» Pergunta um arrojado microfone em riste que, à falta de resposta, vira-se para a câmara e termina o direto:

«E assim dramatizam os portugueses as melhores cenas das suas vidas, idealizando um infinito crescimento económico enquanto brincam aos ricos nas suas casas hipotecadas até aos algerozes, com a bernardete que nunca hão de alcançar.»
   
Pedro deCampos (11.6.2017) in "LiteraDura do ProleTariado"



quarta-feira, 28 de junho de 2017

A PRESSÃO d'AR (uma história em armazém)

  • LiteraDura do ProleTariado (histórias do trabalho)



 "Os telejornais das oito (...) diziam que «Massacre em armazém causa nove mortos e dezoito feridos graves. O homicida, um jovem de dezassete anos aspirante a fiel de armazém, disparou discriminadamente vários tiros de pistola pressão d'ar sobre colegas e patrão.» "



"Quem as arma que as desarme." 
( Provérbio Português )

Naquele início do ano de noventa e cinco, eram constantes os riscos que se corriam no gigantesco armazém de venda e distribuição de artigos para pesca e caça, onde o jovem Vital da Silva, com ainda dezassete aninhos, se estreava no mundo do trabalho. O rapaz arrumava, limpava e carregava arduamente todo e qualquer utensílio que se pudesse encaixotar, vender ou comprar, enquanto aspirava vagamente à profissão de fiel de armazém. Parecia ao moço que, com relativa facilidade, poderia ser fiel ao armazém da Pesca&Caça,S.A.. Dos perigos que espreitavam para lá de cada estante, ainda nada suspeitava.

Naqueles dias felizes, a loja tinha sempre clientes e o serviço não conhecia pausas. E isto muito convinha ao Vital pela sua extrema necessidade em se manter ocupado; caso contrário, insuflava-se-lhe a veia criativa. Fácil também é de entender, pela leitura dos protocolos e regras de armazenamento, que tal capacidade inventiva não encaixava com eficácia no espaço físico daquele entreposto comercial.

E, mais palete menos palete, foi exatamente o que acabou por suceder.

Passados alguns meses de árdua colaboração entre patrão, chefes, escriturários, fiéis de armazém, carregadores, camionistas, caixeiros, vendedores, contabilistas e ajudantes, começaram a ser evidentes, nos estreitos e pouco ventilados corredores da Pesca&Caça,S.A., os primeiros sinais de alguma desaceleração económica gerada pelos anos finais (era o que então se julgava) do cavaquismo. A pica dos capitais europeus, muito mais fraca e com cada vez mais intermediários, já não dava o coice de antigamente, e muitos dos velhos pescadores-caçadores-coletores que por ali negociavam antes, bebericavam agora os dias no gim tónico das algarvias reuniões imobiliárias ou delambiam-se no mamilo da liberdade chupando um contrato para mais outro campo de golfe de agrícola interesse nacional.

Conjunturalmente, o frenesi do armazém viu-se reduzido a tiros de pólvora-seca, verdadeira amostra do engodo de outrora. Ao Vital, já a agonia lhe picava o anzol.

Com quase nada para fazer, deu ao gaiatão em colecionar material de pesca. Colecionar é a palavra correta porque o Vital nunca foi rapaz de faina: muito tosco de motricidade, trabalhar com o fio de nylon era mais um emaranhado passatempo que um real empate de anzóis; depois, a minhoca metia-lhe nojo e do casulo chegava mesmo a sentir medo; e ainda havia a, propriamente dita, problemática do peixe – não gostava de lhe sentir o toque, e do qual, desde miúdo, não apreciava cheiros nem sabores. E assim, só pelo puro prazer de inventariar utensílios e só pela pura necessidade de descarregar a adrenalina contida, se deleitou neste verdadeiro desafio: uma febre desmedida de armazenar em casa um exemplar de tudo o que existia em stock e que à exclusiva pratica pesqueira se destinava.

Não obstante os mil perigos que corria, mais não fazia das oito às dezanove (e até mesmo durante a hora de paragem para o almoço), que maquinar ou levar à prática os mais rocambolescos esquemas para tomar de assalto os três andares de armazém que compunham a Pesca&Caça,S.A..

O sorteio diário, à saída, que impunha uma rápida revista corporal em apalpadelas inocentes, obrigou às mais fantásticas estratégias de gatunagem: delapidou alguidares inteiros com anzóis para todo o tipo de pescado, colados com fita adesiva da cor da pele na parte de trás das orelhas; agadanhou quilómetros de fio das mais variadas espessuras, emaranhando-os nos caracóis dos seus revoltos cabelos; rapinou coleções inteiras de amostras coloridas, encaixando-as dentro do cano das galochas em dias de serviço às casas-de-banho; subtraiu um carreto para mar-alto e de alto calibre, despejando-o no lixo em dia de faxina e passando a apanhá-lo de madrugada mesmo antes da noturna recolha dos monos; surripiou os mais diversos tipos de guizos para ponteiras de cana, acolchoando-os nas pregas do escroto e de modo a não tinirem com a passada; e ainda depenou uma dezena de quilos de chumbadas de gramagem variada, enfileirando-as pelo ânus acima.

Corria-lhe bem, a pesca. Navegava calmo nos estrados do armazém.


Enfunara a vela do bom humor e bolinava-lhe já na ideia uma mirabolante técnica para bifar uma cana de quatro metros e meio (o que não se apresentava como tarefa muito difícil pois a ferramenta desdobrava-se facilmente em duas partes de dois e vinte cinco), quando, inesperadamente, se desmotivou. Caído de novo na melancólica desgraceira de ajudante fiel sem tarefa cativante, cabisbaixo se quedou semanas a fio, sem apetite pela vida, entornando-se do trabalho para casa e da casa para o trabalho, já sem o aquático jorro de outrora. E doíam-lhe os dentes, também, até ao nervo alveolar inferior, enjoando noites a fio nas covas das suas oito cáries a postularem por calafetagem estomatológica.

Numa madrugada sem memória, em casa, enquanto preparava algo ruim com gelo para se afundar na cama para sempre, escutou ao longe o arrulhar das velhas rolas que o seu vizinho do rés-do-chão tanto estimava. Logo ali se estacou Vital, de olhos muito arregalados junto ao frigorífico, e eis que milagrosamente lhe ocorre dedicar-se à caça. «Ai as armas, as armas!» Quanto tempo havia perdido na mariquice da caninha, do anzolzinho, da malinha, do banquinho e do lanchinho, ignorando o verdadeiro desígnio da sua curta vida? «Arma ao ombro!», gritou, e ali se decidiu a, a partir de então, matar e esfolar o seu próprio lanche.

Entretanto, no armazém, alertados que estavam os patrões pela equipa da contabilidade sobre os estranhos stocks piscatórios que se evaporavam sem gerar resultados, apertaram as malhas da vigilância e da revista, e ordenaram ao próprio Vital que se mudasse de vigilâncias e bagagens para a secção do armamento. Porque temiam também aí as investidas da gatunagem ou porque dele desconfiavam e queriam-no longe das pescas, não se chegou nunca a saber. Soube-se só que foi erro crasso para todos neste enredo, mas que, naquele precioso momento, deixou o fiel moço à beira de uma euforia espampanante, camuflada no último instante pelo sangue frio que lhe corria nas veias.

À tarefa que lhe deram de fazer exaustivo levantamento das armas e munições presentes, de olear os metais e as madeiras das ditas, e de verificar gatilhos e tambores a todas, engatilhou-se-lhe na ideia testar os materiais e componentes. Ser mais seletivo nas escolhas era agora o objetivo, não tanto pelas novas dificuldades técnicas requeridas ao saque, mas muito mais pelo próprio amadurecimento da personalidade. Estrategicamente se decidiu a começar pelas armas mais simples, evoluindo a seu tempo em direção às mais complexas. A bisnaga, a fisga, o canivete, a navalha, a catana, a zarabatana, o arco, a besta ou a pistola pressão d’ar deliciaram-no, disparando jatos, cunhas, pedras, golpes, dardos, setas, flechas ou chumbos em todas as direções. A pistola pressão d’ar requeria um traquejo que depressa conquistou: recarregar os trinta chumbos no depósito fazia-o em pouco mais de quatro segundos e para injetar no cabo a botija de cê-ó-dois que, do tamanho de um polegar, manteria na arma a pressão alta, demorava apenas três míseros seguros. E tornou-se a sua predileta.

Ei-lo, então, Vital da Silva, menor de idade, doze anos de incompleta escolaridade, aspirante a fiel de armazém, a ira estampada no rosto imberbe camuflado em verdes e negras riscas, invariavelmente refundido e disfarçado, conquistando terreno aos penhascos de caixotes num crescendo de voracidade pelos montes de gavetas acima, explodindo autoconfiança entre os vales de prateleiras e ao pontapé a tudo o que lhe aparecia pela frente. À cintura, uma bem engendrada tira de grosso couro cravada com dezasseis caixas de quinhentos chumbos cada; no peito e às costas, cruzadas à frente e atrás, duas largas cintas cartucheiras onde se perfilavam encaixadas oitenta reluzentes botijas do gás pressionante; à tiracolo, um par de binóculos; uma em cada mão, as duas pistolas em riste.

Se com as primeiras oito silenciosas armas alarido algum havia feito, com a pistola, mesmo sem o fogoso ruído da pólvora, muito começou a dar nas vistas. Para melhorar a já de si aguçada pontaria, atirava rápida e repetidamente em alvos dispostos por todo o armazém e rebentava em performances guerreiras rastejando, trepando e furando tal comando no médio oriente. Os silvados dos chumbos e os baques dos projéteis no metal, no cartão, no plástico e na madeira, atraíram a presença dos mais diversos figurantes da Pesca&Caça,S.A.: primeiro uma dúzia de colegas de hierarquia que, estúpidos com o que presenciavam, apenas se boquiabriram a segura distância; depois vieram as chefias que, por funções a que os postos obrigavam, gritaram que nem uns animais para que parasse com aquela fantochada; quase em simultâneo, o vendedor mais premiado, o patrão e o seu secretário achegaram-se também àquele piso onde raramente empoeiravam os sapatos, para questionarem a algazarra.

«Ó Vital!? Que é te deu, rapaz?» Arriscou perguntar num passo à frente o seu subchefe direto, isto antes de ser atingido por dois chumbos, um de cada pistola, um em cada olho, demonstrando com a cegueira imediata as virtudes atiradeiras do moço. Ficou-se a perceber, de jorro, a enorme gravidade da situação ali armazenada, quando começaram a gritar, uns, a fugir, os outros, e a gritarem e a fugirem ao mesmo tempo, diversos deles. E desapareceram todas as dúvidas no momento em que um dos chefes se decidiu a acudir o seu invisual subordinado quase-morto e foi prontamente furado em cheio na têmpora, ficando a esvair-se num fino repuxozinho de sangue.

E o Vital, que ora gritava que nem um animal a ser sangrado, ora gargalhava louco com os dentes arreganhados, depressa se esgueirou silenciosamente pelos túneis acartonados e pelas pontes de cantoneira que conhecia como as palmas das suas mãos, indo à caça dos restantes colaboradores e empregadores que em mais nada pensavam que se porem a salvo daquela inexplicável selvajaria típica de escola secundária norte-americana.

Na correria, atropelaram-se dois quarentões, um caixeiro de viagens e outro camionista de longo curso, que, caídos de bojo no estrado, foram chumbados de cima para baixo, em plenas cruzes, com quatro projéteis, um para cada rim. Sobrevivendo aos corpos estranhos no organismo, contudo ali se quedaram imóveis, gemendo quase tanto como quando se padece de cólica renal. Quem ouviu os gemidos e não resistiu à voluntariosa prestação de ajudar os próximos, foi um auxiliar de limpezas. Quando colocou a cabeça para lá da segurança do monte de sacos de chumbo onde se havia refugiado, levou com um chumbinho em cheio na artéria femoral, agora de baixo para cima que o Vital já havia mudado inesperadamente de posição. Em minutos se findou, perdendo os vermelhos todos do corpo pelo furinho na virilha e alagando todo o mármore em volta com o precioso sangue.

Com os atropelamentos e os gritos e as correrias e os empurrões daquelas gentes aflitas, e mais as quedas e os estrondos e as explosões dos objetos que derrubavam e pisavam e incendiavam por onde passavam, o número de feridos e mortos ia para além daqueles que o Vital provocava diretamente com as suas supostas fracas armas. Mesmo assim, poderoso nas intenções e cada vez mais enraivecido, começa o caçador a dirigir-se à zona dos escritórios de onde a maior parte dos administrativos já se havia escapulido, não sem antes terem alertado as autoridades e as outras instituições que costumam aparecer nestas imagináveis situações. Lá só restavam o patrão e o seu secretário da administração e de estimação, muito volteando atarantadamente, ambos, com papéis, portáteis, títulos, certificados e outras traquinices típicas destas individualidades. Abre cofre e fecha conta, tira saldo e limpa saco, rasga folha e dita ordens, offshora-se uma lágrima adamantina com elevado índice de refração, e nem deram conta do clandestino aproximar do Vital caçante.

Lá fora, as barulhentas ambulâncias e os amarelos inemes e respetivos bombeiros, enfermeiros médicos e doutores recolhiam e entrapavam aqueles destroços de gente enquanto ensacavam os que já nem gente eram. Os polícias normais mantinham o perímetro imaculado, afastando a empurrão a curiosidade dos abutres populares e tratando de acalmar a preocupação dos familiares das possíveis vítimas. As rádios, as televisões e os jornais, as câmaras, os microfones e os telemóveis, os repórteres, os fotógrafos, os pivôs e os média, escutavam quase uns poucos e falavam mais que todos. Os polícias especiais das brigadas de intervenção estavam de preto, hirtos e calados (os subordinados), e de preto, hirtos e concentrados nas plantas do armazém, os subordinantes – todos se preparavam para a ação.

Vital está completamente alheio ao aparato exterior. Os olhos raiados de sangue almejam à distância as costas das suas próximas vítimas. Lenta e silenciosamente, dissimulado pela cabulagem elétrica do primeiro andar dos escritórios, trepa e arrasta-se pelas cilíndricas condutas de ar condicionado até à divisão pretendida. Pendurado pela tenaz força das pernas ao tubo ventilador, de cabeça para baixo, encontra a linha de tiro perfeita para cilindrar mais dois. Injeta nas pistolas duas novas botijas de ar comprimido – máxima potência de tiro. Verte no carregador chumbos da melhor marca – mais probabilidade de perfuração. Com os seus olhos de lince, tem alinhadas as alças e as massas de mira de ambas as pistolas às carótidas das presas.

Com o frenético ensacar do numerário, patrão e secretário nada pressentem sobre a curta distância a que o fel se encontra deles. Nada desconfiam sobre a eminente perfuração das suas veias e a consequente limpeza eterna das suas almas. Mas saltam quando veem os primeiros agentes das brigadas de intervenção correr ao fundo do corredor. E quando se apercebem do suspenso vulto da besta, camuflada, invertida, rosto contorcido, olhos encarnados, armas eretas – a morte pendente a pouco mais de seis metros de si –, correm histericamente também na mesma direção.

Vital dispara de imediato as pistolas pressão d’ar numa sincronização quase exata. Mesmo com as vítimas em movimento, atinge patrão e empregado nas pretendidas zonas do pescoço. Depois, derruba-os com os binóculos, aplicando-lhes uma repetição de fortes golpes rotativos nos crânios. No chão, inanimados, os homens não sentem o lento vazar do corpo, o sangue a correr vagaroso sobre os papéis, e sem compreenderem que estão a ser assassinados com duas impensáveis chumbadas nas carótidas externas.

Com a bruta entrada dos polícias pela sala, Vital mais não consegue fazer que ganhar algum tempo enfiando verticalmente os canos das armas dentro da própria boca. Sem falar, sem expressar sentimentos, sem transparecer emoções, sem responder aos apelos e ordens policiais, observa a seus pés as vítimas a falecerem e prepara os seus últimos disparos.

«Quando era miúdo, às vezes dava-lhe para chatear a gente. Vinha por trás e amandava tipo pedras da calçada à cabeça da gente.» Confidenciava ao calção curto da jovem e loira jornalista, um vizinho do Vital com mais dez ou quinze anos que o rapaz. E ainda disse: «Mas a gente dávamos-lhe uns murros nas costas e uns pontapés tipo na cara e a coisa ficava por ali. Pior foi quando ele se agarrou ao ácido…» A jornalista, de microfone profissional, pergunta: «O Vital, tão novo, já era toxicodependente?» E o vizinho: «Não, não! Ele era é do tipo independente. O pai dele, que era o melhor pintor lá do bairro, também era muito bom a dar porrada na família. Chegava passado a casa, muita bêbado, e vai tipo de afiambrar na mulher, na miúda e no puto por porras sem jeito nenhum. Uma vez em que o Vital levou dele com uma lata de tinta das de dez litros pelas pernas, todo torcido, ainda agarrou numa de decapante e amandou-lhe com o ácido à tromba. O cota, quando saiu do hospital – e teve lá quase seis meses –, parecia o Nikki Lauda. O pessoal do bairro andou anos a falar na cena.» Cerrou os olhos devagar e encolheu os ombros, expressando corporalmente um simples «É a vida!»

Foram oito os disparos ouvidos pelos polícias que ficaram momentaneamente sem respirar e à espera da queda final do jovem fiel armazenista. Com as armas já caídas a seu lado, uma pistola à direita e outra à esquerda, tomba finalmente o Vital: primeiro, violentamente sobre os joelhos, e depois, muito devagar, o resto do corpo a descair para trás de encontro ao chão alcatifado. Os da ordem afastaram logo as pressão d’ar, viraram o miúdo até à posição lateral de segurança e sentiram-lhe o pulso. Estranhamente o seu coração batia calmo, forte e compassado como o de um velho maratonista. Não havia sinais de ferimentos externos ou internos. Estava apenas apático, de olhar vazio e com um ligeiro esboço de sorriso nos lábios.

Sem qualquer tipo de resistência, Vital da Silva foi despojado da sua camuflagem e munições, algemado nas mãos e nos pés, colocado num reforçado colete-de-forças e transportado em carrinha gradeada e de vidros foscos à prova de bala, em altíssima segurança, para o único estabelecimento prisional psiquiátrico do país. A saída do armazém fez-se de forma muito ordeira uma vez que, comunicando os de dentro com os de fora, conseguiram espantar os populares que pretendiam cheirar o massacre de perto. Algumas máquinas e câmaras indiscretas ainda conseguiram fotos de baixa qualidade e uns poucos curtos filmes daquele jovem rosto criminoso todo esborratado de verde e negro. Continuando sem expressão, apenas apático e de olhar vazio, com um ligeiro esboço de sorriso nos lábios, as fotos nada revelavam sobre o que se passava ou teria passado naquela mente assassina.

Menos de uma hora depois, os telejornais das oito abriam com essas mesmas imagens e diziam que «Massacre em armazém causa nove mortos e dezoito feridos graves. O homicida, um jovem de dezassete anos aspirante a fiel de armazém, disparou discriminadamente vários tiros de pistola pressão d’ar sobre colegas e patrão.» Momentaneamente, o país ficava em choque traumático e com pouco mais reação que um sussurrado «Meu Deus!» entre dentes.

Em simultâneo com o pasmo de um país inteiro que pouco habituado vivia a estas extremas violências internas, o jovem Vital da Silva, acorrentado nas traseiras da carrinha prisional, desenvolve no rosto nova expressão facial, ainda apático e de olhar vazio, mas já com um tremido sorriso a desenhar-se-lhe nos lábios: tocando com a língua nos dentes, sente o formato de oito chumbinhos encrustados nas covas das cáries; contorce-se com uma ligeira dor na ampola retal provocada pelas duas botijas de cê-ó-dois que enfiou no ânus; e recorda-se alegremente da pistola pressão d’ar, tamanho infantil, que traz acolchoada nas pregas do escroto. 
  

Pedro deCampos (27.1.2017) in "LiteraDura do ProleTariado"


sexta-feira, 16 de junho de 2017

A MOSCA (Uma História Hospitalar)

  • LiteraDura do ProleTariado (histórias do trabalho)                                                                


"Todos naquele serviço sabiam, desde o seu penoso processo de integração, o significado daqueles audíveis varejares: quando pousa a mosca no doente, é certa a morte do paciente; e se a mosca é varejeira, tens morte reta e ligeira."


"Cada mosca faz sua sombra." 
( Provérbio Português )

Eram mais ou menos quatro e meia, a hora forte das visitas, quando, em plena enfermaria, a mosca zumbiu. Os corredores, os cuidados intensivos, as macas, o armazém, a já falada enfermaria, os quartos, o refeitório, a farmácia, a unidade médica, o balcão, os infetados, a esterilização e todos os outros espaços hospitalares que não há necessidade de aqui referir estavam à cunha.

«Anda por aí mosca. Viste-a?» Disse a enfermeira muito gorda.

«Vi. Não é só mosca. É varejeira.» Acrescentou o auxiliar dos vários pírcingues e dilatadores, bastante interessado. «E é das verdes!»

Todos naquele serviço sabiam, desde o seu penoso processo de integração, o significado daqueles audíveis varejares: quando pousa a mosca no doente, é certa a morte do paciente; e se a mosca é varejeira, tens morte reta e ligeira.


De avental posto e luvas calçadas, com pés de celofane, touca e máscara a condizer, ficaram ambos à espreita e a ver em que cama pousava o inseto.

«Vai ser no dezoito preto.» Apostou o auxiliar dos vários pirsingues e dilatadores. «Os gajos de África atraem-nas e o velho já anda todo amorfinado.»


«Percebes lá disto! Eu jogo no vermelho, o doze, sabes qual é, não sabes? Aquele que entrou todo desorientado a gritar contra os que estão a dar cabo do sistema seminacional de saúde e que levou logo com a dose mágica de amonioxilosinomida do senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço. Ficou logo todo entubadinho, a ventilar, o gajo. E ainda é novo!»

A enfermeira muito gorda não se tinha apercebido que o senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço acabara de sair da sala dos médicos e, mesmo bocejando e ainda esfregando os seus olhitos de lémure, ouvira toda a conversa. Dá meia volta sobre os calcanhares e, de forma autoritária para a enfermeira muito gorda e para o auxiliar dos vários pirsingues e dilatadores, remata subtilmente: «Profissionais experientes como são, com idade para terem juizinho e estão aqui neste palácio da saúde com tal tipo de conversas? Que gentalha! Com parva superstição popular sem fundamento científico nem comprovação estudada! Isso é um mito!»

«Deixe-se de discursos, ó doutor. Venha ver. Rápido! Aposte já! A vareja já entrou na unidade!» Sibilou excitada a enfermeira-chefe com casaquinho azul de malha, já de olhos fixos na brachycera voadora, e que se havia achegado ali mal a conversa começara. «Digo eu que ela vai assentar é na velha. Aposto que é mesmo naquela escara mais amarelada.»

Farto da crendice popular, o senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço gesticulou nobremente e voltou as costas aos rápidos ésses que a mosca descrevia naquele etéreo ambiente hospitalar, onde rasgava o éter com asas mestras. Erro crasso. A varejeira guina à última da hora junto à algália do dezoito e sem apelo nem agravo aterra na farta cabeleira do senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço. O académico ainda se sacudia nervosamente e já os outros três, os menos académicos, fundiam as vozes preocupadas num prolongadíssimo: «Oooooooh, doutor!»


Sem tempo para mais comentários, a unidade rebenta num aparato de “Pi-pi-pis”, “Ué-ué-ués”, “Ti-nó-nis” e outros sonidos típicos da emergência, em face da paragem encefalocardianorrespiratória do doze da amonioxilosinomida. O camarada, mesmo sem o pouso da varejeira, estava a bater a bota.

«O carrinho! O carrinho! Tragam o carrinho!» Gritou muito profissionalmente o senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço. Também muito profissionalmente, estacou de seguida, olhou enviesadamente para o processo do paciente e tornou a bradar profissionalmente: «Ai, que este é para investir! Carrinho com desfibrilhador, por favor!»

Estando o carrinho da unidade médica na manutenção, surge, em passo de corrida de velocidade, e vinda dos findos do serviço e dos fundos do feicebuque no aifone, a enfermeira estagiária do beicinho caído – empurrava desaustinadamente o carrinho de emergência suplente: «Aqui tá ele! Aqui tá ele! E tem desfrilhibador!» – que a miúda era mexida e esforçada mas suavemente disléxica.

Todos nas suas estudadas posições desarrumam o carrinho às pressas: o auxiliar dos vários pirsingues e dilatadores a posicionar e a desabotoar o doente; a enfermeira muito gorda a esventrar seringas ao plástico e a injetar dose reforçada de potassioxilosinomida; a enfermeira-chefe com casaquinho azul de malha a ligar à corrente o desfibrilhador e a elevar a voltagem para números dignos de quadro de alta-tensão; o senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço a besuntar as pás do desfibrilhador com um unto qualquer facilitador da passagem da corrente elétrica e a esfregar rotativamente as ditas uma na outra; e a enfermeira estagiária do beicinho caído a tirar apontamentos.

Vai daí que então o senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço grita em inglês americano: «Clear!» 

E os restantes, entreolhando-se nos seus oito sobrolhos franzidos, perguntam-se que raio de ideia quer o homem transmitir com aquele estadunidense berro. Estatuam-se no encerado piso hospitalar, viram-se para o da bata e dizem em coro: «Quê?»

«Clear, pá! Clear!» Repete enfurecido o médico com aquela pausa destruidora da sua ospícia performance. «Toda a gente sabe que se não se gritar “Clear!”, o desfibrilhador não surte aquele encadeado de efeitos dos filmes: o ligar à corrente, “Zuuuut”; o encostar na peitaça, ”Poop”; e ondulado horizontal do doente eletrificado, “Papom”!» Disse. «Sejam rigorosos! Atuem como se este comuna fosse da vossa família, porra!»

A enfermeira-chefe com casaquinho azul de malha achou aparvalhada a atitude cinematográfica do senhor doutor que traz o estetoscópio ao pescoço e ameaçou que iria descrever com frases e ilustrações coloridas toda aquela idiotice caso o homem não lhe passasse para as mãos as pás desfibrilhadoras e a deixasse continuar o salvamento do doze. Os outros acenaram afirmativamente manifestando união decisória no trabalho, sentimentos de pertença à classe e orgulho na ordem. Com o médico a teimar que queria todos “Clear!” dali para fora e com a enfermeira-chefe a jogar-lhe, primeiro uns olhares endemoninhados, e, logo depois, umas unhas felinas às pás. Vai que puxa um para aqui e repuxa o outro para acolá e arrebanha um para acoli e apanha outro para lá, até que as bases de metal besuntado das pás do desfibrilhador desandam uma para cada um dos mamilos do clínico e descarregam-lhe pelo corpanzil abaixo aquela corrente elétrica primordial, gémea pouco mais enfezada que aquela sentida aquando do nascer do tempo e do espaço. 


A sola do sapato italiano, incapaz de conter a velocidade daquela luz, descoseu-lhe a vida por ali abaixo num instante mais rápido que um penso, e ao tombar em cima do doze, «Ó milagre dos milagres!», devolveu à vida o marxista-leninista. Com o resto dos membros da equipa – os que ainda se encontravam vivos – a socorrer e a felicitar o camarada, junto ao chão, quase encostada ao estetoscópio, ainda se ouvia rugir incontida a enfermeira-chefe do casaquinho azul de malha: «Pasca aí, ó javardo! É assim que se salvam as pessoas, burgesso!»

Enquanto a mosca, a verdejante varejeira, adejava sorrateiramente pela janela mais próxima em direção a uma outra qualquer instituição de saúde – pública ou privada.


Pedro deCampos (8.12.2014) in "LiteraDura do ProleTariado"