quarta-feira, 7 de junho de 2017

EXPERTISTAS



"Abomino expertistas, especialistas em especialidade" (2)
(2) Adília Lopes, BANDOLIM, Assírio&Alvim, p.163, 14/8/2015 
Irritadíssima, enquanto ouvia José Gomes Ferreira. 


Pedro deCampos (22.11.2016) in "ApontaMentes"



NEURA & NEUROSE

"Uma forte crise nos mercados financeiros pode, em segundos, transformar milhares de neuroses em neuras!" (1)


Neurose (s.f.) afeção mental caracterizada por perturbações funcionais, sem que a personalidade seja atingida; neuropatia; nevrose.

.telha ,nervosismo ,bolha (s.f.) Neura


Estou mais para as neuras que para as neuroses. As neuras são mais baratas; têm menos custos associados. A neura do Restelo é, na verdade, uma neurose; já a neurose do Chegadinho não é mais que uma neura. A neura é a neurose dos pobres e dos remediados. A neura nunca chegará a neurose.

Que neura!
(1) José Gomes Ferreira, Jornal da Noite, SIC, 6/7/2013; alarmadíssimo. 

Pedro deCampos (22.11.2016) in "ApontaMentes"


segunda-feira, 5 de junho de 2017

COUVES, por Miguel Esteves Cardoso


Pelo Humor de Deus!


"A mania do «Campo» leva gente civilizada a pegar na enxada, a comprar casas remotas, a acender candeeiros de petróleo e a fazer todas essas outras coisas das quais os antepassados, ao virem para a cidade, conseguiram legitimamente fugir. Outra coisa que fazem, evidentemente, é plantar couves galegas e portuguesas ao desbarato."

Se fosse cineasta e quisesse fazer um filme de terror, não hesitaria em escolher como principal personagem, a couve galega. Entre as espécies botânicas rádio-mutantes, não há nenhuma tão grotesca, tão tenaz e tão assustadora.

A invasão das couves galaico-portuguesas, alastra-se com cada ano. Durante o tempo que demorou a ler o primeiro parágrafo, mais cinquenta e duas couves nasceram. Mais cinquenta e duas (agora cinquenta e seis) iniciaram o seu lento e intratável crescimento. Tornar-se-ão em autênticas árvores, com talos grossos do tamanho de troncos, brotando folhas enormes e impermeáveis, capazes de chibatar no flanco de um pobre burro e passíveis até de servir de revestimento eficaz a uma moradia.

Qualquer estação de serviço com dois metros quadrados de terra lhes serve. À mínima provocação, na mais pequena nesga de terreno, os portugueses plantam couves galegas. Não faltará muito tempo para vermos estes monstros a irromper dos buracos das calçadas, a abrolhar nos vasos das salas de espera dos consultórios e a rebentar, aberrantes de pujança e de seiva, nos átrios dos nossos melhores cinemas. Qualquer cidadão tem o direito, e até a obrigação, de estar bastante nervoso.

A proporção de couves galegas que serve para alguma coisa - para sopas regionais e pratos típicos - é extremamente reduzida. Por conseguinte, as couves vão singrando e reproduzindo-se sem impedimento humano. Há hoje talos que causariam problemas graves à mais poderosa serra eléctrica. 


Embora finjam estar «doentes» (daí a aparência
Brassica Oleracea Acephala

(orgulhoso espécimen com 3,50m,
em Vila de Cano, Sousel)
repulsivamente ratada das folhas), na verdade é apenas um vil estratagema, acertado em cumplicidade com «lagartas» e pardais com perversões alimentícias, para nos fazer crer que não se vão desenvolver mais. Mas desenvolvem-se. Disso podemos estar todos certos.

Sociologicamente falando, por assim falar, sociologicamente, há uma razão que poderá ajudar a explicar este Inferno Verde que ameaça cada vez mais as cidades e arrabaldes do nosso país. A razão diz respeito ao fenómeno dos Novos Camponeses. Trata-se de uma estranha nostalgia atávica que afecta os citadinos de hoje, levando-os a imitar o comportamento dos antepassados camponeses. A mania do «Campo» leva gente civilizada a pegar na enxada, a comprar casas remotas, a acender candeeiros de petróleo e a fazer todas essas outras coisas das quais os antepassados, ao virem para a cidade, conseguiram legitimamente fugir. Outra coisa que fazem, evidentemente, é plantar couves galegas e portuguesas ao desbarato.

Antigamente «a Terra» era um lugarejo longínquo e atrasado, repleto de lobos e lagares, onde as criadas iam passar as férias. Hoje os portugueses das cidades, que até há pouco tempo davam graças a Deus de não ter uma «terra», sentem a necessidade de inventar uma «Terra». Só porque os bisavós isto e a vista para a Serra aquilo, reconstituem os hábitos das criadas para poderem «ir à Terra». No fundo, o que eles fazem é ir para a Província, apesar desta palavra justa ter sido recentemente proscrita. A Província hoje chama-se «Regiões», e não há nada mais na berra do que as regiões.

Os novos camponeses usam invariavelmente «Kispos», que são uma memória plástica das samarras e daqueles casacos feitos de palha que têm um nome que é suposto sabermos, sabe-se lá porquê. Falam do «Campo» como se o tivessem descoberto. No tom que se admitiria a Vasco da Gama à chegada a Calecut, falam das «tasquinhas giríssimas» que descobriram, da velhota a quem compram as alfaces, da vista para as serras e para os rios e praticamente da vista para todo o lado. Cada um tem o seu local «secreto» que «descobriu», o que estaria certo se assim permanecesse. Secreto, em vez de indiscretamente propagandeado na própria cidade de onde dizem ser tão importante «fugir».

Os Novos Camponeses concordam com a couve galega. Podem considerar-se, para todos os efeitos, colaboracionistas. As matas densas de couves, florestas mais meretrizes que virgens, são a vingança do Campo sobre a Cidade. O roçar horrendo das folhas umas nas outras, num linguajar vegetal provocado pelo vento e pelos escapes dos automóveis, sussurra aos transeuntes: «Julgas que nos escapaste, mas não escapaste, toma lá pinhões.» São pinhões que somos forçados a tomar por termos abandonado a existência rude, desconfortável e entediante que é um dos principais encantos do Campo.

É por isso que mesmo na Lapa há couves galegas, tapando a vista até aos segundos andares, em quantidade suficiente para encher o Tejo de caldo verde. Para não falar nas galinhas, nos coelhos e noutros animais selvagens a que algum humorista popular, num momento de péssimo gosto e desrespeito religioso, chamou «criação». Os galos, sobretudo, é preciso denunciar.. Começam a gritar ás quatro da manhã, naquela estridência despropositada e satânica que aquele mesmo humorista chamou «cantar». Numa cidade europeia, os galos só se apresentam «au vin». Um galo vivo é uma aberração. Os únicos bichos que se deveriam consentir vivos numa metrópole são aqueles capazes de obedecer a ordens humanas. O excedente deveria ser forçosamente repatriado para a Província, naquelas carruagens de campo de concentração que se vêem no cinema.

Nesta selva de couves, de criação, de «Kispos» e botas alentejanas, cada vez é mais difícil descobrir a cidade. A couve galega é o símbolo. É preciso inventar um veneno anticouves. Até esse dia entorne-se-lhe uma bica junto das raízes. Não lhes faz nada bem.

in, A Causa das Coisas (1986) Assírio & Alvim, 4.ª ed., 1987, Lisboa, pp. 73-5 


LiteraDura de PAREDE < 1


sábado, 20 de maio de 2017

BREVE HISTÓRIA DA LiteraDura EM PORTUGUÊS

LiteraDura mais não é que um lugarejo virtual para partilha entre os que escrevem e os que leem, especialmente para aqueles que pouco ou nada têm publicado mas que sentem vontade de ser lidos.

A LiteraDuraespécie de literária aldeola na rede, serve exclusivamente as literaturas de Língua Portuguesa. Sem desprezo ou preconceitos perante as restantes línguas e povos que as falam e escrevem, limitamo-nos ao que é nosso só por razões económicas; e apenas de tempo e espaço, entenda-se, uma vez que nela nunca existirão intentos lucrativos.



Nesta LiteraDura pretende-se vir a dar ao prelo digital produções literárias diversas (e adversas, se for caso disso): umas recentes e outras nem por isso; umas minhas, outras tuas e outras de quem as enviar; umas cheirando a narrativa, outras apalpando a poesia, outras ainda que nem se entende o que lá vai; umas só letras, outras só bonecos e ainda outras com o que se quiser misturar. Reclama-se apenas que seja LiteraTura ou que as produções mantenham com a dita um certo relacionamento: incerto ou amoroso, de conjúgio ou ilícito, na cova ou na alcova, tanto faz.

E em suma, LiteraDura.   Coisa rija!


terça-feira, 2 de maio de 2017

NOMES DE TERRAS LÁ PRÓS LADOS DE SABOIA

Pomba, Santa Bárbara, Casa Nova da Cruz, Purgatório, Barranco do Inferno, Carapetos, Craveiras & Nave Redonda

Pedro deCampos (17.11.2016) in "ApontaMentes"


Saboia, Odemira (2011)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

PERDIDO ENTRE SABOIA E S. TEOTÓNIO PELO FAROESTE ALENTEJANO

EN 120-2

bestas bermas bifurcações e badaladas
ecos egos entroncamentos e encruzilhadas
triângulo vermelho vivo morto sangue e gozo
anual sinal de perigo muito muito perigoso

LOMBA E CONTRALOMBA
á ante após até com contra de desde

Pomba (há
uma virgem intrujada: o amor)
Santa Bárbara (ante
uma prece tão à pressa: a vapor)
Casa Nova da Cruz (após
casar nova em cruz foi fixa: com rancor)
Purgatório (até
à mais inútil das labaredas: um ardor)
Barranco do Inferno (com
uma ida sem progresso: que pavor)
Carapetos (contra
o capeta cara preta: o fedor)
Craveiras (de
moleira rachada prá vala comum: no bolor)
Nave Redonda (desde
que viu nossa senhora em jejum: um tumor)

CONTRALOMBILOMBA
desde de contra com atè apòs ante à

Pedro deCampos (19.11.2016) in "ApontaMentes"


Miradouro da Boca-do-Vento, Almada (2005)