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sexta-feira, 9 de junho de 2017
quarta-feira, 7 de junho de 2017
EXPERTISTAS
NEURA & NEUROSE
"Uma forte crise nos mercados financeiros pode, em segundos, transformar milhares de neuroses em neuras!" (1)
.telha ,nervosismo ,bolha (s.f.) Neura
Estou mais para as neuras que para as neuroses. As neuras são mais baratas; têm menos custos associados. A neura do Restelo é, na verdade, uma neurose; já a neurose do Chegadinho não é mais que uma neura. A neura é a neurose dos pobres e dos remediados. A neura nunca chegará a neurose.
Que neura!
(1) José Gomes Ferreira, Jornal da Noite, SIC, 6/7/2013; alarmadíssimo.
Pedro deCampos (22.11.2016) in "ApontaMentes"
segunda-feira, 5 de junho de 2017
COUVES, por Miguel Esteves Cardoso
Pelo Humor de Deus!
"A mania do «Campo» leva gente civilizada a pegar na enxada, a comprar casas remotas, a acender candeeiros de petróleo e a fazer todas essas outras coisas das quais os antepassados, ao virem para a cidade, conseguiram legitimamente fugir. Outra coisa que fazem, evidentemente, é plantar couves galegas e portuguesas ao desbarato."
Se fosse cineasta e quisesse fazer um filme de terror, não hesitaria em escolher como principal personagem, a couve galega. Entre as espécies botânicas rádio-mutantes, não há nenhuma tão grotesca, tão tenaz e tão assustadora.
A invasão das couves galaico-portuguesas, alastra-se com cada ano. Durante o tempo que demorou a ler o primeiro parágrafo, mais cinquenta e duas couves nasceram. Mais cinquenta e duas (agora cinquenta e seis) iniciaram o seu lento e intratável crescimento. Tornar-se-ão em autênticas árvores, com talos grossos do tamanho de troncos, brotando folhas enormes e impermeáveis, capazes de chibatar no flanco de um pobre burro e passíveis até de servir de revestimento eficaz a uma moradia.
Qualquer estação de serviço com dois metros quadrados de terra lhes serve. À mínima provocação, na mais pequena nesga de terreno, os portugueses plantam couves galegas. Não faltará muito tempo para vermos estes monstros a irromper dos buracos das calçadas, a abrolhar nos vasos das salas de espera dos consultórios e a rebentar, aberrantes de pujança e de seiva, nos átrios dos nossos melhores cinemas. Qualquer cidadão tem o direito, e até a obrigação, de estar bastante nervoso.
A proporção de couves galegas que serve para alguma coisa - para sopas regionais e pratos típicos - é extremamente reduzida. Por conseguinte, as couves vão singrando e reproduzindo-se sem impedimento humano. Há hoje talos que causariam problemas graves à mais poderosa serra eléctrica.
Embora finjam estar «doentes» (daí a aparência
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| Brassica Oleracea Acephala (orgulhoso espécimen com 3,50m, em Vila de Cano, Sousel) |
Sociologicamente falando, por assim falar, sociologicamente, há uma razão que poderá ajudar a explicar este Inferno Verde que ameaça cada vez mais as cidades e arrabaldes do nosso país. A razão diz respeito ao fenómeno dos Novos Camponeses. Trata-se de uma estranha nostalgia atávica que afecta os citadinos de hoje, levando-os a imitar o comportamento dos antepassados camponeses. A mania do «Campo» leva gente civilizada a pegar na enxada, a comprar casas remotas, a acender candeeiros de petróleo e a fazer todas essas outras coisas das quais os antepassados, ao virem para a cidade, conseguiram legitimamente fugir. Outra coisa que fazem, evidentemente, é plantar couves galegas e portuguesas ao desbarato.
Antigamente «a Terra» era um lugarejo longínquo e atrasado, repleto de lobos e lagares, onde as criadas iam passar as férias. Hoje os portugueses das cidades, que até há pouco tempo davam graças a Deus de não ter uma «terra», sentem a necessidade de inventar uma «Terra». Só porque os bisavós isto e a vista para a Serra aquilo, reconstituem os hábitos das criadas para poderem «ir à Terra». No fundo, o que eles fazem é ir para a Província, apesar desta palavra justa ter sido recentemente proscrita. A Província hoje chama-se «Regiões», e não há nada mais na berra do que as regiões.
Os novos camponeses usam invariavelmente «Kispos», que são uma memória plástica das samarras e daqueles casacos feitos de palha que têm um nome que é suposto sabermos, sabe-se lá porquê. Falam do «Campo» como se o tivessem descoberto. No tom que se admitiria a Vasco da Gama à chegada a Calecut, falam das «tasquinhas giríssimas» que descobriram, da velhota a quem compram as alfaces, da vista para as serras e para os rios e praticamente da vista para todo o lado. Cada um tem o seu local «secreto» que «descobriu», o que estaria certo se assim permanecesse. Secreto, em vez de indiscretamente propagandeado na própria cidade de onde dizem ser tão importante «fugir».
Os Novos Camponeses concordam com a couve galega. Podem considerar-se, para todos os efeitos, colaboracionistas. As matas densas de couves, florestas mais meretrizes que virgens, são a vingança do Campo sobre a Cidade. O roçar horrendo das folhas umas nas outras, num linguajar vegetal provocado pelo vento e pelos escapes dos automóveis, sussurra aos transeuntes: «Julgas que nos escapaste, mas não escapaste, toma lá pinhões.» São pinhões que somos forçados a tomar por termos abandonado a existência rude, desconfortável e entediante que é um dos principais encantos do Campo.
É por isso que mesmo na Lapa há couves galegas, tapando a vista até aos segundos andares, em quantidade suficiente para encher o Tejo de caldo verde. Para não falar nas galinhas, nos coelhos e noutros animais selvagens a que algum humorista popular, num momento de péssimo gosto e desrespeito religioso, chamou «criação». Os galos, sobretudo, é preciso denunciar.. Começam a gritar ás quatro da manhã, naquela estridência despropositada e satânica que aquele mesmo humorista chamou «cantar». Numa cidade europeia, os galos só se apresentam «au vin». Um galo vivo é uma aberração. Os únicos bichos que se deveriam consentir vivos numa metrópole são aqueles capazes de obedecer a ordens humanas. O excedente deveria ser forçosamente repatriado para a Província, naquelas carruagens de campo de concentração que se vêem no cinema.
Nesta selva de couves, de criação, de «Kispos» e botas alentejanas, cada vez é mais difícil descobrir a cidade. A couve galega é o símbolo. É preciso inventar um veneno anticouves. Até esse dia entorne-se-lhe uma bica junto das raízes. Não lhes faz nada bem.
in, A Causa das Coisas (1986) Assírio & Alvim, 4.ª ed., 1987, Lisboa, pp. 73-5
domingo, 4 de junho de 2017
sábado, 20 de maio de 2017
BREVE HISTÓRIA DA LiteraDura EM PORTUGUÊS
LiteraDura mais não é que um lugarejo virtual para partilha entre os que escrevem e os que leem, especialmente para aqueles que pouco ou nada têm publicado mas que sentem vontade de ser lidos.
A LiteraDura, espécie de literária aldeola na rede, serve exclusivamente as literaturas de Língua Portuguesa. Sem desprezo ou preconceitos perante as restantes línguas e povos que as falam e escrevem, limitamo-nos ao que é nosso só por razões económicas; e apenas de tempo e espaço, entenda-se, uma vez que nela nunca existirão intentos lucrativos.
Nesta LiteraDura pretende-se vir a dar ao prelo digital produções literárias diversas (e adversas, se for caso disso): umas recentes e outras nem por isso; umas minhas, outras tuas e outras de quem as enviar; umas cheirando a narrativa, outras apalpando a poesia, outras ainda que nem se entende o que lá vai; umas só letras, outras só bonecos e ainda outras com o que se quiser misturar. Reclama-se apenas que seja LiteraTura ou que as produções mantenham com a dita um certo relacionamento: incerto ou amoroso, de conjúgio ou ilícito, na cova ou na alcova, tanto faz.
E em suma, LiteraDura. Coisa rija!
Nesta LiteraDura pretende-se vir a dar ao prelo digital produções literárias diversas (e adversas, se for caso disso): umas recentes e outras nem por isso; umas minhas, outras tuas e outras de quem as enviar; umas cheirando a narrativa, outras apalpando a poesia, outras ainda que nem se entende o que lá vai; umas só letras, outras só bonecos e ainda outras com o que se quiser misturar. Reclama-se apenas que seja LiteraTura ou que as produções mantenham com a dita um certo relacionamento: incerto ou amoroso, de conjúgio ou ilícito, na cova ou na alcova, tanto faz.
E em suma, LiteraDura. Coisa rija!
terça-feira, 2 de maio de 2017
NOMES DE TERRAS LÁ PRÓS LADOS DE SABOIA
segunda-feira, 1 de maio de 2017
PERDIDO ENTRE SABOIA E S. TEOTÓNIO PELO FAROESTE ALENTEJANO
EN 120-2
bestas bermas bifurcações e badaladas
ecos egos entroncamentos e encruzilhadas
triângulo vermelho vivo morto sangue e gozo
anual sinal de perigo muito muito perigoso
LOMBA E CONTRALOMBA
á ante após até com contra de desde
Pomba (há
uma virgem intrujada: o amor)
Santa Bárbara (ante
uma prece tão à pressa: a vapor)
Casa Nova da Cruz (após
casar nova em cruz foi fixa: com rancor)
Purgatório (até
à mais inútil das labaredas: um ardor)
Barranco do Inferno (com
uma ida sem progresso: que pavor)
Carapetos (contra
o capeta cara preta: o fedor)
Craveiras (de
moleira rachada prá vala comum: no bolor)
Nave Redonda (desde
que viu nossa senhora em jejum: um tumor)
CONTRALOMBILOMBA
desde de contra com atè apòs ante àPedro deCampos (19.11.2016) in "ApontaMentes"
| Miradouro da Boca-do-Vento, Almada (2005) |
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