terça-feira, 18 de julho de 2017

A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL ( IV, V )



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.





4. DIÁRIO DOS SACRIFÍCIOS DE UM MÉDICO
(prováveis implicações no reino animal)


foto NUNO REALINHO (Projectos SuReal) 





















…edifiquei eu então,

em plena indisposição e mal-estar
porque da doença infeliz
para melhor estudo eu me fiz,
alvo, cobaia, hospedeiro ou lar,
um Majestoso Diário
utilíssimo à humanidade:
do bisonte ao rinoceronte
do símio ao hominídeo,
do jacaré ao chimpanzé,
grandes e estranhas alterações
com genéticas repercussões
nas respectivas evoluções
porque todos aplaudiram de pé

e nunca mais se esquecendo
de como a mão solta dá um certo jeito
e o polegar oponente
permite ser tão diferente
e um dedo indicador
tão nervoso e com fervor
pode com facilidade disparar
tiros de carabina para o ar,
foi assim que a fauna animal
passou a viver menos mal

porque seu predador principal
de caçador a presa passou
e em perigo de extinção entrou.

Animais e plantas unidas
jamais serão vencidas
na luta que vão travar;
querem regras decididas
leis que preservem vidas
para o ser humano salvar.




5. REGULAMENTAÇÃO SELVAGEM
(alguns artigos para salvar a humanidade)
























Artigo 1º : Crânio-Missanga

Fica proibido o elefante,
(o mais trombudo dos paquidermes
o menos leve dos terrestres animais),
de os humanos tratar como vermes
ao, egoisticamente, se embelezar
com seus crânios mirradinhos
tal e qual missanga azul-mar
em pulseira, aliança ou colar.

Artigo 2º : Palito-Mindinho

O segundo dos artigos
ao gorila é dedicado
para abolição natural
de a velho costume habituado;
desenraizar da cultura símia
o paliteamento do dente
sempre que executado
com mindinhos de gente.

Artigo 3º : Pilinha Afrodisíaca

A qualquer rinoceronte branco
ou aos cinzentos também dirigido,
sobre os míticos afrodisíacos
recaíu a temática deste artigo.
Que viril seja por si mesmo e só,
se reclama ao pré-histórico animal;
desacredite, doravante, a pilinha tenrinha
como alimento da tesão fenomenal.

Artigo 4º : Tenros Petiscos


Proíbem-se todos os animais
e também os carnívoros vegetais
de para sempre se delamberem
com certos petiscos como tais:
todos aqueles cujo ingrediente
seja considerado incorrecto
por consistir ou apenas derivar
do humano e tenrinho feto.

Artigo 5º : E Da Ova Se Fez Peixe

Se da ova de todo o peixe
o homem apreciador se fez,
será muito grande esta lição
(um dar da face à malvadez)
se se convencer o terror dos mares
que dá pelo nome de tubarão
de chiar orgulhosíssimo:
“Mais mulheres grávidas não!”

remotas histórias de eras esquecidas
que por vezes convém relembrar.



Araújo Mil Acres (12.1999)


segunda-feira, 17 de julho de 2017

VAMOS TRANSFORMAR AQUELAS MONTANHAS EM ESCOLAS, por Vasco deOliveiraVentura


Cronista Sem Abrigo

"Onde se abrigam as crónicas sem abrigo." 

Tinha havido um horrível atentado no Paquistão, levando à morte de dezenas de pessoas. A meio da conversa, o tema foi introduzido e o rapaz de 20 anos soltou uma exclamação. “Fogo, essa gente está sempre nisso, não sabem fazer outra coisa? É impressionante!”.

Fiquei a olhar para ele e tentei explicar racionalmente (com um ar provavelmente irritante): São países que vivem na miséria económica e política, que passam boa parte do tempo em guerra, ou em guerras… Mas a maioria dessas populações, se as deixarem, farão a sua vida normal quotidiana, trabalhão, irão à escola, nascerão, viverão, amarão, percorrerão uma existência normal, se isso lhes for permitido.



Fiquei a pensar em alguém que me disse que basta ir a Varanasi, na Índia, para perceber que a vida não vale nada. Que uma existência humana vale menos que a de uma vaca… Que não somos nada.

Há um livro biográfico, que relata uma história verdadeira e se chama Três Chávenas de Chá. É sobre um norte-americano, que, de estudante a alpinista, de montanheiro a aventureiro, acaba por dar consigo a construir uma escola no Paquistão, nos anos 1990. E depois outra, e mais outra. Cinquenta e cinco. Especialmente dirigidas para as meninas, as raparigas…

No mesmo país que viu nascer e prosperar os talibãs e a Al-Qaeda, que odeiam a liberdade, subjugam, dominam e espezinham as mulheres. Quando Greg Mortenson, autor e protagonista da história e do livro, se decidiu a construir a primeira escola, não tinha um tostão. Tinha que viajar para o Paquistão, comprar material, contratar uma equipa e pôr de pé uma escola. Era uma, mas acabaram por ser 55. E dar origem a uma das mais importantes obras humanitárias das últimas décadas.

Não me lembrei de contar isto ao rapaz de 20 anos com quem conversava sobre o Paquistão. Mas posso garantir com toda a certeza que com este livro todos nós temos imenso a aprender. Acaba com um homem daquela região do Mundo a dizer a Greg qualquer coisa como: “Estás a ver aquelas montanhas de pedra? Vamos transformar aquelas montanhas em escolas”.


in, http://cronistasemabrigo.com/index.php/2016/06/04/vamos-transformar-aquelas-montanhas-em-escolas/


sábado, 15 de julho de 2017

A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL ( I, II, III )



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.












1. O MESTRE E AS CRIATURAS VINDOURAS
(uma formação realmente espontânea)

Mergulhei de boca e lápis pelo papel


Segundo e seguindo Agapito
(nome comum ilustríssimo)
de Benevides e Campos
(próprios nomes desse gentil senhor finíssimo)
tão imprestável doutor e especialista
da protestável Portuguesa clínica generalista
que homem útil à ciência, verdadeiramente
diga-se que o foi realmente
apenas em especialidade alguma
será como dizer
objectivamente e em suma
evidentemente em coisa mesmo nenhuma...




foto SANDRA GONÇALVES, in FB (26.6.2017)








2. MEMÓRIAS PRIMAS
(nostálgicas recordações)


... prescrever

em tão bom tempo e tão bem
porque também e até muito bom generalista sou
apesar de ternamente ser
um mero e interessado discípulo seu

(tal qual Alexandre Heleno do Ó Grande,
do mestre Aristóteles das Tangas e Togas Toscas,
que lhe pôs a mesa usando na mão direita um mata-moscas
que a esquerda apenas toca um vinho e experimenta
com sandes de guisadas carnes de peito lisboeta
insistindo o velho e alucinado sábio para que
fervorosamente ao cérebro o tinto arremeta)

prescrever

declarações, alterações e inovações amiúde
registos escritos, rescritos e gravuras
que se o clima mediterrânico meu raciocínio não ilude
por mais que a menina medicina hoje em dia mude
olho eu como actuais essas páginas com iluminuras.

São textos tão dengosos
com arrastados odores melosos
deitados ao papel de receita
cuja caneta já lhe é tão afeita
com tinta chamada permanente
escorrendo de um paro incontinente
em funestos actos caligráficos
de formas e conteúdos sádico-gástricos...





3. A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL
(diagnóstico precoce e amor pela ciência)


Que então diagnostiquei eu


a Metamorfose Cérebro-Gripal
em adoentado tratado medicinal
para quem não bate bem ou mal
do foro freudiano-sexual e
querendo combater tão vil verme gripal
mais pestilento que meu sogro Juvenal
li já escrito num reles jornal
(erro salvo se não foi n'A Capital)
que para tal dever-se-ia viajar até ao Senegal.
Notícias de um país idiota bem real
onde se mata por um SG Genital
gérmen nicotinoso para catarro matinal
é pipi pito pitoada toada pitada salgada de tão pouco sal
na nossa vidazita social
encarcerados num orifício cavernal;
Vê-me por favor num negro dicionário abissal
que tipo de cal é essa tal cal
que vem cegando de modo letal
um povo que já lá vão anos e anos a ver tão mal.

Malentendus à parte
no concernente a outras viroses e achaques
achei por bem para todas as partes
revelar ao mundo,
de Cicrano e Beltrano
de Blimunda e Segismundo
casa de todos nos no fundo,
da Metamorfose Cérebro-Gripal
tudo tudo e mais do que tudo:

definições
clínicas manifestações
possíveis complicações
prevenções
e terríveis conclusões

sua etiologia
tua patogenia
nossa patologia
deles epidemiologia

sintomas subjectivos
objectivos sinais
prognósticos efectivos
diagnósticos e algo mais

pelas páginas de um diário diário.

Araújo Mil Acres (12.1999)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL



Diário do Doutor Araújo Mil Acres, médico cirurgião da palavra mais estranha.



Este "Diário do Doutor Araújo Mil Acres", segundo o próprio cirurgião, foi escrito em apenas dois dias e durante uma gripe em febres altíssimas, sem antipirético que lhe valesse. Em dezasseis entradas não datadas, com verso branco ou rimando, o físico fez da escrita seu antibiótico e, quer crer, eternizou-se nos finais do ano de mil novecentos e noventa e nove. 

- Mas mais no espaço que no tempo... e mesmo assim só um miligramazinho. - Confessou-nos esta sumidade universal em verborreias agudas.

Araújo Mil Acres (12.1999)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P4)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P3)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P2)


A METAMORFOSE CÉREBRO-GRIPAL (P1)


NO TEMPO DAS CAPAS GORDAS > 7


LiteraDura de PAREDE < 7


segunda-feira, 10 de julho de 2017

TRUMPPOESFERA


há a tromba elefantina
a tromba carrancuda
e a trombada
(linguaruda)

há o trombo encefálico
o trombo da flebite
e a trombose
(dinamite) 

há a trompa sonoplástica
a trompa de falópio
e o trompázio
(estereoscópico)

há o trump sem abrigo
a trampa na calçada
e o trumpacéfalo
(cacaborrada)

há o allegro ma non troppo
o alegre mas não trôpego
e o alegrete
           (no trombil)

Pedro deCampos (8.2.2017) in "ApontaMentes"



quarta-feira, 5 de julho de 2017

RECOMPENSA

recompensa o rasgo umbilical
que te impuseram à nascença 
mas lamenta o frio a fome e o cio
e a ofertada indiferença


aguenta o sal no lago dos olhos
engole a irritação imensa
mas relembra tua sede nascente
que só o todo se lhe aparenta

atenta bem no corpo da besta
a mecânica da rude ofensa
e remenda seu prumo e sorte
no nível da áspera diferença

rebenta sim mas só por dentro
e comove o espírito na doença
mas alimenta na carne o grito
que te proibiram à nascença

ou implodirás todo gasto na contenda
gargalhando tiros no passaporte
que do teu sangue já viajaste um litro

e deste a tua vida deste a tua morte.

Pedro deCampos (2.7.1999) in "PisaDuras & ArDores"


segunda-feira, 3 de julho de 2017

CHAVAL, por Alexandre O'Neill


caricatura por Paulo Fernandes
Entre o Bem e o Mal,
cresce a borbulha na cara do chaval.

O chaval ainda não sabe
que a barba,
bem ou mal
feita, é uma banalidade
matinal.


in, De Ombro na Ombreira (1969) reunido em Poesias Completas,  Assírio & Alvim, 5.ª ed., 2007, Lisboa, p. 264


Pelo Humor de Deus!





QUE VERGONHA, RAPAZES!, por Alexandre O'Neill


in, Pelo Humor de Deus!

Que vergonha, rapazes! Nós pràqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no «diz que»
e a desnalgar a fêmea («Vist'? Viii!»).

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me soergo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(«O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!»)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O'Neill! E... as varizes?


in, De Ombro na Ombreira (1969) reunido em Poesias Completas,  Assírio & Alvim, 5.ª ed., 2007, Lisboa, p. 272 



DIZQUEDISSEQUEDISSEQUE...


DIZQUEDISSEQUE...


DIZQUE...



DIZ...



domingo, 2 de julho de 2017

O VELHINHO DOS ESTAGIÁRIOS, por Vasco deOliveiraVentura


Cronista Sem Abrigo

"Onde se abrigam as crónicas sem abrigo." 

“Ouve lá, os subtítulos, foram de férias? E os parágrafos, foram nadar?”. Vinte e poucos anos, tinha começado havia dias a estagiar no Diário de Notícias. A Lena, tão recente na minha existência como os outros “senhores” que trabalhavam na redacção do DN, tinha-me dito:

“Amanhã trazes uma proposta de reportagem”. No dia seguinte não era ela que estava a chefiar a secção, mas sim o “senhor JLP”, homem de muito poucas falas que metia respeito à distância. Munido de coragem e incentivado pela recordação da amável chefe ausente, fui lá e propus… Uma reportagem sobre a desindustrialização do Barreiro, o antigo colosso fabril da margem sul então mergulhado na decadência, quando estávamos no início da década de 1990.


Algumas semanas de investigação, para depois apresentar a primeira versão ao Humberto, o “velhinho dos estagiários”. O Humberto era um monumento no DN. Não era assim tão velho, mas que era dos estagiários, era. Ele e o seu comparsa, o João Pedro, que tinha pouco mais de um terço da idade dele.

Levávamos as nossas prosas ao Humberto, e ele não nos editava, cortava ou alterava os textos. Éramos nós que tínhamos que fazer isso aos nossos artigos, seguindo as sugestões dele, até as notícias estarem perfeitas.

Assim aprendíamos, fazendo, corrigindo e refazendo. O Humberto e o João Pedro tinham umas ideias maravilhosas, nessa época em que os computadores em Portugal ainda eram coisa recente e pouco desenvolvida.

O sistema, no entanto, já permitia ir recuperar textos antigos, para consultar determinados parágrafos ou frases que pudessem ser úteis para novos textos sobre os mesmos temas. (A Internet ainda era uma coisa de especialistas, os telexes fervilhavam febrilmente na redacção trazendo-nos as notícias do Mundo, acompanhavam-se os canais internacionais de televisão e INVESTIGAVA-SE). Como um desses textos que tinham recuperado e consultado, num dia longínquo, era sobre os índios mohawk, o Humberto e o João Pedro explicavam-nos que o tal sistema de recuperação de textos antigos era “O Mocas”.

O que é certo é que, quando entreguei o texto ao “senhor JLP”, depois de o ter escrito e refeito segundo as sábias recomendações do Humberto, o chefe disse duas coisas, no momento em que lhe pedi para assinar o papel de entrada e saída do edifício. “Eu assino. Eu hoje assino tudo o que tu quiseres”; E, em seguida: “Não, ‘tava porreiro. ‘Tava porreiro”. A sua reacção constituiu quase o único conjunto de frases que lhe ouvi sair da boca durante o meu estágio de três meses. Mas para mim chegou.

inhttp://cronistasemabrigo.com/index.php/2016/11/28/o-velhinho-dos-estagiarios/